17 janeiro 2016

"Podia-mos ser um só"

Pelas ruas de Lisboa, alguém apaixonado escreveu esta mensagem enigmática: "Podia-mos ser um só".
"Podia-mos ser um só" - Lisboa, 2016 © Pedro Filipe Godinho
Foto: Pedro Filipe Godinho. Lisboa, 2016.




































O leitor mais desatento olhará rapidamente para este pedaço de escrita como sendo um (grave) erro ortográfico. Eu também o fiz e por isso mesmo o fotografei. No entanto, deitei um pouco mais de pensamento em cima do que tinha visto e concluí que não, isto pode não ser um erro.

Repare-se na componente filosófica do que ali temos escrito: "Podia-mos ser um só". O que quem o escreveu quis dizer ultrapassa qualquer conotação romântica ou fantasiosa de um amor platónico, que - como todos os bons amores platónicos - nunca o será de facto. 

O autor revela também uma clara vontade de demonstrar que, graficamente, a palavra "podíamos" podia ter sido uma só. Mas não o foi. Ele (ou ela) não quis que assim fosse. Esta construção desconstruída leva-nos a pensar sobre que tipo de homem ou mulher temos diante de nós. A envergadura da incerteza sobre o quão complexo pode ser tornar duas partes numa só podia até, no limite, dizer respeito à Física ou à Química, com uniões e fissões de partículas.

Filosoficamente, esta frase leva-nos até a pensar no que é que seria necessário acontecer para que pudessem ser "um só". Seriam duas pessoas? Seria a relação entre a verdade e a mentira? O bem e o mal? Quererá este autor desconhecido dizer que, nós, o bem e o mal, podemos ser um só, como quem afirma que podemos ter o bem e o mal em doses iguais no nosso carácter? Nunca o saberemos e a poesia popular inscrita nesta parede dá-se muito a estas dúvidas eternas.

Ou, então, se calhar, foi só mesmo um erro.

20 dezembro 2013

Capa do ano?

Capa do jornal i de 20 de Dezembro de 2013. O dia seguinte ao chumbo do Orçamento do Estado proposto pelo Governo de coligação PSD/CDS pelo Tribunal Constitucional.

Maravilhas musicais

Por alguma razão que me escapa e para a qual não consegui ainda vislumbrar qualquer justificação, cresci num ambiente musical largamente distante daquele em que me encontro desde há cerca de uma década. Fui sempre um mero ouvinte, com demasiado medo de arriscar ser um executante. Ouvi de tudo, mas até entrar na adolescência passei por todos aqueles pontos que, com o passar dos anos, não fazem mais do que envergonhar-nos. Até àquele dia em que a década em que crescemos estiver na moda (aguardem, porque os 90s estão prestes a voltar à berra). Nessa altura, podem funcionar como "vergonha alheia" ou "guilty-pleasures".

A partir de uma certa altura, fugi, diria que inconscientemente, de tudo aquilo que foi a "normalidade" para mim até aí. Normalidade essa que sempre esteve assente no mundo dos resquícios dos anos de 1980, com best-of atrás de best-of e single atrás de single de grandes artistas dessa época e com tudo o que de bom e de mau se fez na década seguinte. O ambiente musical em que fui inserido - não me venham com histórias que nessa altura o que ouvimos é sempre influência de alguém - moldava-me num certo sentido.

Assim não aconteceu. Mudei-me para um ambiente musical muito, muito distante desse. Talvez tenha começado essa aventura com os Da Weasel. Não, não os apanhei antes de todos nem sequer a meio de qualquer coisa. Terei começado a ouvi-los no Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder - um dos primeiros discos que comprei. Sensivelmente a partir daí, o meu mundo musical terá mudado. Para melhor, claro.

A capa de Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder, dos Da Weasel. Álbum de 2001.

Acho que tive uma grande sorte neste ponto geracional. Eram os primeiros tempos da década de 2000, era tudo muito incerto, fugíamos de uma década de 1990 já de si bastante distante da anterior e que parecia ter deixado a música portuguesa numa seca quase completa ao nível da variedade.

Nada mais de errado, posso agora concluir. A génese de tudo o que de bom houve nesta última década começou aí, naquela em que a música portuguesa, ao nível mainstream, se cingia ao artista popular e ao fado. Mas isso mudou.

Nomes como os Da Weasel, os Ornatos Violeta - que tanto adoro -, os Silence 4, toda uma geração de hip-hop nacional ou tantos, tantos outros, abriram uma época de música nacional que não tem limites. Que se abre ao mundo e, mais do que uma língua ou um só estilo de música, leva um país e uma certa cultura nacional.

Hoje em dia, há de tudo e para todos. Se por acaso fôssemos espanhóis a este nível, com algum fechamento cultural face ao que vem de fora em vez de uma total abertura a tudo e mais alguma coisa, estaríamos muito bem entregues a uma geração recheada de talento e de capacidade de o projectar - quero acreditar que ele sempre existiu mas que nem sempre houve espaço para o mostrar.

Tudo isto para chegar aqui. Para vos aconselhar - quem sou eu para o fazer, mas, bom, não custa tentar partilhar coisas boas. Passem pelo canal da Antena 3 no YouTube. Sim, um canal de vídeos de uma rádio. Mas não é só uma rádio.

Um dos melhores canais de YouTube que vão encontrar na actualidade.

Se o meu ambiente musical mudou, naquele momento e não mais cedo nem mais tarde, em grande parte, deve-se à melhor rádio portuguesa. Não é a mais ouvida nem a mais popular. Não vive de publicidade, vive do Estado. Somos nós que a pagamos. E ainda bem que assim é. Se temos um serviço público de comunicação - e eu defendo-o incondicionalmente -, que seja de grande qualidade. E a Antena 3 merece cada cêntimo que lá tem investido.

Cresci com a Antena 3, ouço-a, sem excepção, há mais de uma década. Marcou a minha vida, a minha cultura musical, o que ouço, o que vejo, o que leio, o que penso. É um ponto essencial por onde passa a compreensão cultural de uma certa geração. Não muito alargada, diria. Sei bem que, no meio da globalidade da minha geração, até somos poucos. Mas marcou-nos. E continua a marcar.

Marcou no passado com uma linha de acção bem marcada e definida: promover e divulgar o que de bom se faz por cá. Sem excepções nem preconceitos. Lançaram, apoiaram e divulgaram desde o primeiro momento muita gente que, hoje, tomamos como garantida no panorama musical.

O passado foi uma coisa e o meio da comunicação mudou drasticamente. Temia-se pela rádio. A Antena 3 deu a volta ao texto e afastou os temores. Está tão forte como nunca. Está viva, recheada de talento por aqueles corredores, cheia de oportunidades e de possibilidades para o futuro.

Uma das paragens obrigatórias para se perceber o que a Antena 3 faz e o que se faz, musicalmente, neste país é aquele canal. Se é bom, está lá. Há de tudo, para todos e com grande qualidade. Desde os mais conhecidos aos estreantes. Todos passam por lá. Aliás, todos passaram por lá. Os tais Da Weasel, um tal de Noiserv, uns doismileoito, uns tais de Deolinda, um NBC, uns Dealema ou uns Mind da Gap.

Tudo fruto de uma filosofia que leva a que a rádio seja construída com um sentido muito claro e com um propósito muito feliz. Tudo fruto do trabalho de radialistas que não se limitam a fazer humor fácil e com o tempo contado para falar e que tudo o que dizem é papaguear publicidade. Radialistas que promovem música, que entrevistam, que falam de música, que deixam a converseta para outros palcos. Ali, conversa-se com tema, com inteligência, com sentido de humor, com especialistas e com leigos que querem muito aprender.

Muito para lá do "ouvir" a música e o que a rodeia, respiram-na. Absorvem-na, compreendem-na, exploram-na. Para depois poder falar dela com propriedade com os artistas que a fazem e connosco. Somos sempre mais um naquele estúdio.

Sei que quem me lê por aqui são só meia-dúzia de pessoas que têm paciência para andar por cá a ler milhares de palavras de cada vez. No entanto, se aguentaram até aqui, sigam a recomendação. Se conseguir trazer para este lado da geração uma pessoa, já me darei por contente.

Deixo-vos um dos melhores e mais recentes vídeos do canal, da música 'Espero', dos Trêsporcento. É alta qualidade a cada segundo, é música marcante, bem feita, com personalidade e que nos faz mergulhar naquele mundo, criado por letrista e por autor. Vale a pena esta e muitas outras. Explorem, vejam o que se anda a fazer por cá. Se querem ser patriotas, comecem pela cultura antes do futebol. Há muito mais gente depende da nossa atenção aqui do que nesse campo.

26 novembro 2013

Alternativas: «Relançar a Europa a partir do Sul»

A Europa tem - e é, como hoje a conhecemos - um problema. São vários, aliás. Para os solucionar é preciso, primeiro, problematizá-los. Perceber do que se tratam, na prática, os problemas em questão, identificar a origem e procurar encontrar soluções. Nunca há uma só solução, por muito que se tente vender que a austeridade e o "austericídio" que tem sido imposto aos países do sul da Europa seja o único caminho possível. Não é. Há alternativas.

Mas para lá chegarmos, ao máximo de alternativas que conseguirmos, e podermos tomar uma opção de livre vontade e em plena consciência do impacto e das implicações que todas elas possam causar, é preciso perceber, em primeiro lugar, onde está o problema.

O projecto Ulisses, uma ideia do eurodeputado português Rui Tavares - pena que o patriotismo se fique por um ou outro elemento nacional e não se estenda a uma maior variedade de indivíduos, organizações, projectos e ideias deste país - pretende avançar neste sentido. Primeiro, procura-se perceber - como se já não soubéssemos - o que falhou no projecto europeu e nas lideranças europeias e da Europa. Depois, procura-se perceber o que podemos fazer para solucionar o problema.

Para isso, depois de uma grande conferência organizada em Lisboa, um dos outros elementos de interacção com o "mundo real" é um documentário divulgado há poucas semanas.

Nesse documentário, Daniel Cohn-Bendit, co-presidente dos Verdes Europeus, coloca uma parte do problema em termos muito simples e de fácil percepção: «O grande problema é que os alemães são pela Europa, mas é preciso que a Europa seja alemã. Os holandeses são pela Europa, mas é preciso que a Europa seja holandesa. Os franceses são pela Europa, mas é preciso que a Europa seja francesa. Os portugueses querem uma Europa portuguesa! […] O problema é que hoje não conseguimos definir o bem-comum para uma Europa que transcende os Estados nacionais».

Há muito que defendo esta ideia. Também há muito que defendo que uma das grandes origens para a crise que hoje vivemos foi a falta (que ainda falta) de uma identidade europeia. Aquilo que temos é uma mera cidadania, não um espírito de pertença. Esse apenas existe para uma meia-dúzia de optimistas e de crentes num projecto que (ainda) não existe. E isso vê-se no crescendo de nacionalismos um pouco por toda a Europa, como aqui já referi. São movimentos oportunistas, que aproveitam a descrença generalizada para fazer valer perspectivas de uma realidade que não resolvem qualquer tipo de problema. Enquanto os patriotismos reinarem sobre o universalismo e uma perspectiva de se ser humano em vez de se ser português, cipriota, lituano ou checo, a origem do problema manter-se-á, levando a uma derrocada no futuro.

Em seguida, deixo o documentário realizado e produzido no âmbito do Projecto Ulisses.

Projecto Ulisses

20 novembro 2013

O mundo emparedado

Falei (aqui), há dias, da desumanização de um povo, vigente na disputa territorial e de soberania(s) entre Israel e a Palestina. O emparedar de uma relação entre dois povos que leva a que um deles entre num estado de tratamento tal que se torna impossível conseguir ceder qualquer respeito para com o "outro". Amuralhar, em pleno século XXI, com o objectivo de proteger um determinado povo ou estilo de vida (já lá vamos), impondo uma barreira física aonde a psicológica já é extremamente marcada é uma realidade. Tem-no sido e assim continuará a ser, a ver pelos testemunhos de quem ocupa territórios divididos por muros de betão, arame farpado ou qualquer outro elemento de solidificação de uma má relação.

Num grande trabalho de divulgação e, no fundo, de sensibilização para esta questão, o britânico The Guardian apostou num fabuloso (e extenso) trabalho gráfico de demonstração de vários sítios que vivem com uma fronteira física imposta por um (ou mais, bem mais) muro, parede, muralha ou o que lhe quiserem chamar.

Excertos da reportagem do The Guardian (1).

Há relatos vindos de muitos lugares, dos mais conhecidos aos menos falados e abordados. Há razões para umas barreiras e outras razões para outras. Não há um só motivo por que elas são impostas. Começa-se a "viagem" pela fronteira dos Estados Unidos da América com o México, onde foi imposta uma barreira física, implacável na luta contra a imigração ilegal; segue-se para Marrocos, onde se relata uma luta diária que muitos dos conhecedores daquela região conhecem bem mas que escapa ao resto do mundo: a fronteira desértica e minada entre o Sahara Ocidental, com os seus nativos, e Marrocos, com a sua polícia a assumir um papel crucial na eliminação de esperanças, sonhos e vontades de viver livremente.

Continua-se o percurso mundial - que, apesar de tudo, não é completo, ressalvando-se na reportagem que estes são só alguns exemplos - pela Síria, com a mais recente divisão territorial imposta pelo betão, consequência da guerra civil e que foi criada com o objectivo de proteger as rivalidades étnicas de um conflito ainda mais violento. Chega-se à Índia, onde nos deparamos com a maior divisão de todas, ultrapassando os 4 mil quilómetros. Aqui, pretende-se separar, marcadamente, o Bangladesh da Índia. A consequência? A separação de famílias, territórios onde a rivalidade era insipiente ou até infértil. E mais de mil mortos nos últimos 10 anos.

Chega-se, então, ao Brasil, mais concretamente a Alphaville, um gueto para ricos instalado nos arredores de São Paulo. Ali, pretendeu-se, ainda no final da década de 1970, formar um espaço onde os mais endinheirados poderiam viver em segurança, sem a ameaça constante de assaltos, raptos ou homicídios que se vive naquela cidade brasileira. Ali, desde sempre, trabalham os menos endinheirados para quem lá vive. Perde-se a ligação entre dois "mundos" para ganhar segurança.

Excertos da reportagem do The Guardian (2).

Em seguida, é contada a história mais brutalmente irónica de todas e que foi relatada na tal reportagem da Al Jazeera que partilhei há dias: Israel. Quase 500 quilómetros de território amuralhado para separar israelitas de palestinianos. Por motivos de segurança, dizem. Aquele povo que foi enfiado em guetos em meados do século XX, fecha-se agora, trancando um outro povo num mega-gueto, em jeito de apartheid. Já vai em mais de uma década esta realidade que se vai agravando um dia após o outro. Citando um dos testemunhos: «Não há nem uma hipótese em mil de que o muro venha a cair. Não tenho esperança. Ontem foi melhor do que hoje e hoje é melhor do que o amanhã».

Nesta grande e longa viagem, passamos, então, para a Europa. É por esta altura, também, que os relatos contidos na reportagem começam a indicar uma certa normalidade na divisão territorial à custa de barreiras. Esta é encarada como algo verdadeiramente necessário e um mal menor no sentido da normalização do dia-a-dia de um conflito. Na Grécia, teve início em 2012 a construção de uma barreira territorial na fronteira "mais vulnerável" da União Europeia, na região do rio Evros, junto à Turquia. Ali, separam o mundo para lá da Europa da Europa em si. Tenta-se evitar a entrada de imigrantes ilegais. 

Tal como nos enclaves espanhóis em Marrocos de Melilla e Ceuta. À falta de uma política europeia verdadeiramente eficaz no acolhimento de imigrantes por parte dos Estados-membros da União Europeia, avança-se para uma lógica de encerramento de fronteiras implacável, muitas vezes, ao nível dos direitos humanos. Vale tudo no tratamento de quem tenta chegar a uma vida melhor. E se, para efeitos de "protecção" de quem é europeu, a melhor solução que encontram é fechar cada vez mais a fronteira, os imigrantes continuam a chegar ao outro lado e em cada vez piores condições humanitárias. Ainda assim, estranha-se a "normalidade" com que são encaradas estas barreiras nestes locais em específico.

Excertos da reportagem do The Guardian (3).

A normalidade também reside e resiste na Irlanda do Norte, um outro exemplo retratado. Com 99 divisórias espalhadas um pouco por toda a Belfast (com início em 1969), pretendeu-se separar as tensões religiosas entre Católicos e Protestantes. Hoje em dia, dizem alguns dos moradores dos bairros problemáticos que contêm as barreiras físicas, não se consegue viver sem elas. E se, noutros locais, é visível o lamento de que as barreiras talvez nunca venham a cair e isso seja um sinal de desesperança, neste caso, há quase um agradecimento pelo atenuar da rivalidade e por conferir uma certa normalização do dia-a-dia de quem vive nas zonas divididas.

Resta-nos terminar a viagem na península coreana, no conhecido Paralelo 38. É uma zona de guerra, entre dois países em guerra e com uma tensão nunca decrescente, havendo apenas alturas em que ela não cresce. É uma divisão necessária, dizem. Composta de uma militarização permanente dos dois lados da fronteira, acrescentam. Vêem-na como algo normal, natural e até essencial. É assim há 60 anos. O normal, diz um habitante da zona, é isto: «Há ameaças a toda a hora. Não nos incomoda. Se de repente não houvesse ameaças e tudo ficasse calmo, isso, sim, seria estranho».

Começa-se pelos casos mais chocantes, apresentam-se dados, histórias de vida e casos que provocam a revolta para com estas barreiras físicas que ultrapassam a normal percepção de uma fronteira como algo imaginário. Uma linha traçada num mapa, ora um quilómetro mais adiante, ora um quilómetro mais atrás. Aquelas linhas que definem se somos vistos com um certo carinho ou com total desprezo. Mesmo que entre o ponto A e o ponto B diste apenas 1 metro e duas nacionalidades diferentes. Não é relevante pensar-se duas vezes se isto provoca uma certa desumanização do "outro". Há uma nacionalidade, uma pátria, uma religião, uma etnia a proteger. Ou, no caso europeu, um status quo a manter. 

Passa-se depois para os casos mais "leves", onde nos é oferecida uma visão das coisas que deixa toda esta questão numa normalidade assustadora. Num limbo de quase aceitação de que esta é uma situação aceitável, com razão de ser. Vemos quem assuma que uma separação física do "outro" é uma solução viável para os problemas. Mas não, na verdade, nada fica resolvido. Quando muito, atenuam-se tensões e evitam-se confrontos mais acalorados. Mas nada fica verdadeiramente resolvido. Porquê? Muito porque, ao mesmo tempo que se separa, a aproximação, a compreensão e o respeito desaparecem. Falha-se na colocação em prática, nas escolas, de 
«um trabalho pedagógico em profundidade e de longo alcance. Para dar a conhecer às crianças, enquanto a sua mente está ainda aberta e disponível, as origens do racismo, a sua história, a sua natureza desumana e as tragédias que causou. É preciso dizer e repetir que o medo e a ignorância são os dois pilares desse flagelo, que é possível desmontar o seu mecanismo, através do saber e da inteligência, através do debate e do fim dos tabus.» Daqui
Separar, dividir, impor barreiras e incitar aos patriotismos mais parolos, descabidos e impensados é um primeiro passo para colocar tudo isto em causa. «Dividir para reinar», sempre ouvimos dizer. E aqui o que reina é, nem mais nem menos, do que o medo pelo desconhecido. Divimo-nos, separamo-nos e distanciamo-nos do "outro", tornando-o num estranho, num ser incompreendido e incompreensível. Mesmo que as acções que lhes sejam condenáveis também possam ser observadas no comportamento do "nós" e do "eu". Há muito a trabalhar para se chegar a um ponto desses e o segredo está num grande e importante elemento: a educação.
Malala Yousafzai, a menina paquistanesa que, para lá de um discurso, personifica a lendária frase «Yes, we can». Foto: World Bank Collection.

05 novembro 2013

Quando a realidade longínqua se aproxima

Manifestação no Porto, Março de 2013. Foto: Vincent Goumont.

Referi, num artigo anterior, no contexto de uma reportagem da Al Jazeera nos locais de transição entre Israel e os territórios palestinianos, a importância dos patriotismos nestas questões. São eles - a par, naquela região, de um maior fervor religioso - que trazem para a ribalta falsas questões e populismos que levam a conflitos e a crescendos de popularidade por parte de algumas forças políticas.
O retrato feito do ambiente no Médio Oriente é algo de longínquo para a realidade conhecemos das últimas décadas na Europa. Uma Europa democratizada, assente em valores humanos devidamente sustentados e com um crescimento económico e social assinalável. Com a crise, esses valores são colocados em causa. Com a diminuição dos salários, chega a pobreza, a descrença num sistema político, na sociedade e até nas pessoas.

Com isto tudo, abre-se espaço a formulações políticas de um certo espectro que, em circunstâncias "normais", não apareceriam. Do lado da extrema-direita, o aproveitamento desta realidade - tal como é feito em diversas zonas do globo, onde organizações fundamentalistas recrutam entre os mais pobres e ignorantes, beneficiando do desespero e dessa mesma ignorância e parca compreensão do mundo - aparece com maior incidência nestas alturas. A história assim o mostra e, aparentemente, esta parece estar a ganhar contornos de replicação.

Um pouco por toda a Europa (França, Espanha, Rússia, Grécia, ou até o Reino Unido) este sentimento (perigoso) vai assumindo uma importância cada vez maior, sempre atrelada ao potencial que este tipo de discursos reúne em alturas de desespero social e individual. Onde não mora a esperança nem a crença num futuro melhor, surge e prospera, com mais facilidade, a ideia de que a solução é tão fácil quanto expulsar os estrangeiros do território nacional e "devolver" - o que quer que isso signifique - o poder a quem "defende realmente os interesses nacionais" - sejam eles quem forem.

A realidade do Médio Oriente, que vemos como sendo longínqua, assente nos patriotismos exacerbados a ódios (violentos) de estimação, pode não estar assim tão distante. É muito mais fácil assumir e assinar por baixo um discurso nestes contornos, alavancado por uma falsa ideia de solução rápida, indolor e cem porcento eficaz, do que tentar ver para além da cortina de fumo. Esta facilidade, contudo, está assente em pressupostos tão errados como os princípios que a levam a assumir-se como solução.

04 novembro 2013

Retrato de uma realidade demasiado distante

Da Al Jazeera, um dos canais de televisão informativos mais interessantes e vibrantes dos nossos dias, chegou, em 2012, um retrato dos checkpoints e dos constrangimentos físicos e psicológicos impostos pelas limitações territoriais de Israel para com os territórios palestinianos. Da autoria de Muhammad Salama, uma peça documental com uma mensagem forte, declarada e com um conteúdo que deve ser assinalado e deve fazer pensar. 

São muitas as dúvidas que surgem ao ver esta realidade assim, relatada em estado bruto e sem qualquer melodrama. Para os mais cépticos, a primeira dúvida que surgirá com este retrato é "será isto verdade?". "Será tal e qual o que aqui contam?" Ora, eu vou mais longe. Será que faz sentido a imposição de linhas fronteiriças que ultrapassam a normal condição de "linha imaginária"? Faz sentido ter este apartheid absolutamente tenebroso, que incute o medo pelo "outro"? Vale a pena chegar-se à falta de respeito e a uma desumanização que deixa o "outro" numa condição que de humano tem muito pouco?

É normal ter tais divisões aos níveis religiosos e nacionalistas? Não somos todos iguais? Não temos todos as mesmas preocupações (bem-estar, convívio com familiares e amigos, uma vida pacata e tranquila que permita aproveitar o que de bom têm os poucos dias em que por cá andamos)? Porquê os patriotismos? Porquê os fundamentalismos (religiosos ou outros)? Porquê ter atitudes patetas (ou "patrióticas", como lhes queiram chamar) em nome de algo que ninguém sabe bem o que é e que apenas serve de arma de arremesso e de conflituosidade? 

Será que não existem coisas mais importantes e relevantes do que a "defesa" de um jogador de futebol perante uma humilhação pessoal e personalizada? Há. E são bem mais graves. 

O problema é que estão longe de mais. Vivem lá no estrangeiro, no longínquo "mundo" do terrorismo, que, felizmente, por cá não se conhece em primeira mão. Vivem para lá da redoma dos fait-divers que alimentam um sentimento bacoco. Sobrevivem, aliás, desse sentimento bacoco, que, esse sim, não tem fronteiras. Não tem limites. Revê-se num comportamento que, aos olhos de quem vê à distância, é condenável. Ao perto, é "natural". Ser diferente, ao perto, é ser-se errado, um "bicho estranho". Ser diferente, ao longe, é ser-se sensato, uma raridade, aquele com quem é importante trocar impressões e perceber o que realmente se passa "lá longe". 

Vejam e percebam, então, o que se passa "lá longe". Num sítio onde as fronteiras, há muito, deixaram de ser meras "linhas imaginárias" e assumiram contornos de escândalo humanitário.

01 setembro 2013

"Só neste país"

Foto: AFP 
Escândalos de corrupção e cinismo político minam a confiança. As promessas eleitorais são autênticas anedotas. E cada país tem políticos que, mesmo que estejam muito empenhados no seu papel, se agarram ao poder.
Mas o que pretendem os manifestantes? Os militantes esperam mais transparência e um comportamento responsável por parte dos seus políticos. Exigem resultados concretos como contrapartida dos seus impostos e, acima de tudo, respeito. São os políticos que estão lá para servir as pessoas, não o contrário.
Raramente há um programa concreto. Os manifestantes unem-se por uma rejeição das práticas políticas dominantes.
[…]
Os partidos políticos que tentam juntar-se aos manifestantes são corridos e vaiados. “Não estamos aqui para substituir o Governo atual pelo seguinte”, é uma palavra de ordem muito difundida.
Nenhum líder surgiu destes protestos. Todos os que tentaram caíram rapidamente do pedestal. Personalidades destacadas da organização procuram livrar-se o mais depressa possível das atribuições de porta-voz, para não serem rapidamente criticados pelos outros manifestantes. As estratégias são frequentemente debatidas em plenário. Cada manifestante pode chegar-se à frente e expor a sua própria visão.
Esta ausência de liderança e de programa é simultaneamente a força e a fraqueza destes movimentos. Permite reunir grandes grupos heterogéneos, mas significa que ninguém toma a iniciativa de pôr em prática reformas reais. A oposição oficial é alvo das mesmas suspeitas do Governo. Gera-se uma miríade de pequenos partidos, que não conseguem gerar confiança. As eleições ameaçam, pois, perder a sua função de motor de mudança.
Parece - ou poderia parecer, noutras alturas - Portugal mas não é. Isto passa-se nos Balcãs. As mesmas frases, a mesma contestação, o mesmo tipo de manifestação. Como as houve , na Turquia e no Brasil e por aí fora. É generalizado porque - apesar do que pensamos - não é "só neste país". Nunca é "só neste país".

02 julho 2013

Existimos

Como dizia, há dias, esta geração na qual me incluo limita-se a existir. Não somos, nem vivemos nem sequer se pode dizer que sobrevivamos, estamos um pouco para além disso, no limiar da existência. Umas quantas almas perdidas no tempo presente sem capacidade de poder coleccionar um passado e com demasiadas amarguras relativas ao futuro, cada vez mais distante e improvável de chegar. Uns corpos que vagueiam num mundo que devia ser explorado não fosse o caso de ser preciso ter mais qualquer coisa para além da vontade para que o possamos fazer.

Para quem assim vive, tudo isto não é uma novidade. Para quem está de fora, começa a sê-lo. Para quem vive lá fora e olha cá para dentro por uma janela cada vez mais escancarada, começa a ser uma realidade cada vez mais retratada. Há cerca de uma semana, o Washington Post resolveu olhar para uma maternidade portuguesa - a maior de todas - e ver como estavam os nascimentos por ali. Juntamente com outros indicadores menos óbvios de uma economia - como as taxas de crescimento, de desemprego, etc. -, a taxa de natalidade é uma marca extremamente relevante para se perceber em que ponto está uma geração e perceber como será a seguinte.

Em Portugal, não nasce "ninguém". Não há dinheiro, não há perspectivas de o ter e as crianças não vivem exclusivamente do ar. Não há emprego para se poder ter dinheiro para se poder ter crianças. Por não haver emprego, começa a não haver as pessoas que o poderiam ter e que teriam as tais crianças. Estão a sair daqui. Cansaram-se de existir e quiseram ser. Se todos fizerem o mesmo, o país morre. Não num sentido poético e ilustrativo mas num quase literal sentido de perda. Assim será se nada mudar. E não se perspectivam melhorias. O horizonte é muito negro.
 
«Um homem percorre uma rua em Vila Ruivas, Portugal» - Uma das fotos ilustrativas da reportagem do Washington Post.
Foto: Matt McClain | The Washington Post

19 junho 2013

É tudo uma questão de sonhar

Vale a pena ler tudo o que, aqui, Juan Arias diz sobre o porquê de se estar a assistir às manifestações que têm ocorrido no Brasil e o porquê de estarem a ocorrer agora, numa altura em que o Brasil é um país bem melhor do que há 10 anos. Ainda assim, recorto só uma parte do texto de Arias [em português do Brasil]:

Em primeiro lugar, poderíamos dizer que, paradoxalmente, a culpa é de quem deu aos pobres um mínimo de dignidade: uma renda não miserável, a possibilidade de ter uma conta corrente em um banco e acesso ao crédito para poder adquirir o que sempre foi um sonho para eles (eletrodomésticos, uma moto ou um carro). 
Talvez o paradoxo se deva a isso: ter colocado os filhos dos pobres na escola, oportunidade que os pais e avós não tiveram; ter proporcionado aos jovens –brancos, negros, indígenas; a todos, pobres ou não-, entrar na universidade; ter dado para todos acesso gratuito à saúde; ter tirado os brasileiros do complexo de culpa de "cachorros de rua”; ter conseguido tudo aquilo que, em somente 20 anos, converteu o Brasil em um país quase do primeiro mundo. 
Os pobres chegados à nova classe média se conscientizaram de ter dado um salto qualitativo na esfera do consumo e agora querem mais. Querem, por exemplo, serviços públicos de primeiro mundo, que não são; querem uma escola que além de acolhê-los, lhes ensine com qualidade, que não existe; querem uma universidade não politizada, ideologizada ou burocrática. A querem moderna, viva, que os preparem para o trabalho futuro. 
Querem hospitais com dignidade, sem meses de espera; sem filas desumanas; onde sejam tratados como pessoas. Querem que não morram 25 recém nascidos em 15 dias em um hospital de Belém do Pará. 
E querem, sobretudo, o que ainda lhes falta politicamente: uma democracia mais madura, na qual a polícia não continue atuando como na ditadura; querem partidos que não sejam, na expressão de Lula um "negócio” para enriquecer; querem uma democracia onde exista uma oposição capaz de vigiar o poder. 
Querem políticos com menor carga de corrupção; querem menos desperdício em obras que consideram inúteis quando ainda faltam moradias para oito milhões de famílias; querem uma justiça com menor impunidade; querem uma sociedade menos abismal em suas diferenças sociais. Querem que os políticos corruptos vão para a prisão. 
Querem o impossível? Não. Ao contrario dos movimentos de 68, que queriam mudar o mundo, os brasileiros insatisfeitos com o já alcançado querem que os serviços públicos sejam como os do primeiro mundo. Querem um Brasil melhor. Nada mais. 
Definitivamente, querem o que lhes ensinaram a desejar para ser mais felizes ou menos infelizes do que foram no passado. 
Escutei alguns dizerem: "Porém, o que mais essa gente quer?”. A pergunta me recorda o de algumas famílias que, segundo eles, depois de dar tudo aos filhos, estes se rebelam da mesma forma. 
Às vezes, os pais se esquecem de que a esse ‘tudo’ faltou algo que, para o jovem, é essencial: atenção, preocupação com o que ele deseja e não pelo que às vezes lhe oferece. Necessitam não somente ser ajudados e protegidos; levados pela mão; querem aprender a ser protagonistas. 
E aos jovens brasileiros, que cresceram e se conscientizaram não só do que já têm, mas do que ainda podem alcançar, do que lhes está faltando justamente é que lhes deixem ser mais protagonistas de sua própria história, ainda mais quando demonstram ser tremendamente criativos. 
Que o façam, porém, sem violência agregada, pois já sobra violência a esse maravilhoso país que sempre preferiu a paz, em vez da guerra. E que não se deixem cooptar por políticos que tentarão pegar carona em seus protestos, para esvaziar seu conteúdo/sentido.
Em um cartaz se podia ler: "País mudo é um país que não muda”. E também, dirigido à polícia: "Não disparem contra meus sonhos”. Alguém pode negar a um jovem o direito de sonhar? 
Quero acreditar que, em Portugal, já vivemos momentos - pontuais, é certo, eventos de um só dia, também é certo - deste tipo. Lembro-me, por exemplo, de pelo menos dois (este e este), ocorridos em pouco mais de dois anos e de que aqui falei. Houve mais deste género, é verdade, mas a maioria teve lugar mais com a força de um protesto contra qualquer coisa do que com a de querer uma mudança. Nesse contexto, o único que se assemelha a essa característica em específico é o de Março de 2011.

Aí, embora não existindo essa referência devidamente explicitada, o grande protesto foi pelo "direito de sonhar", de que nos fala Arias. Eu estive nessa manifestação pelo meu direito a sonhar. Era a da "Geração à Rasca". 2011 foi, aliás, o último ano a que tive direito a sonhar e a viver um sonho. Há quase dois anos que muitos que antes se dignavam a sonhar, hoje, já só existem. Que é muito diferente de viver e de sobreviver. Limitamo-nos a ser, sem perspectivas, objectivos ou sonhos. O conhecer o mundo vai ter de ficar para mais tarde; aquele abraço, tão distante que fica como a da diferença de uma carteira cheia da de uma vazia; aquele sonho tão desejado que nunca chegará porque já não há mais caminho por onde continuar.

O Brasil e os seus brasileiros estão a agir bem, a tempo. Aproveitar um bom momento para exigir mais e melhor é sempre melhor do que deixar descambar e correr atrás do prejuízo. Como que a prever um "fim" altamente agoniante, naquele sábado de Março, ainda antes da queda do governo de José Sócrates e da chegada da Troika a Portugal, tentámos lutar por um sonho antes de chegar à parte do pesadelo. Não conseguimos e a possibilidade de sonhar desmoronou-se. 

A legitimidade democrática de um aplauso (II)

Não são os partidos que “dão” liberdade de voto aos deputados. São os deputados que têm esse dever constitucional, e a obrigação de dar um cunho de independência e autonomia ao trabalho que fazem. Se as estruturas partidárias aprenderem, de uma forma geral, a não impedir esse processo e até a promovê-lo, estarão a dar razões para que os cidadãos se reconciliem com a democracia representativa.
O deputado português ao Parlamento Europeu Rui Tavares, há já algum tempo, sobre o sentido de voto imposto aos deputados. Tal como já aqui havia dito, esta é, para mim, uma das principais mudanças que deveriam estar a decorrer nos "costumes" políticos nacionais.

Entretanto, amarrados à obrigatoriedade de seguir uma linha de voto e de ponderação nos destinos do país só porque é necessário manter o - tão agradável para algumas elites - status quo, a pobreza atinge níveis inimagináveis, o desemprego não pára de aumentar, a dívida pública do país - razão pela qual se justificou a "ajuda" dos três estarolas - limita-se (tão irreverente, não obedece aos mandamentos dos encantadores de Excel) a subir a pique, e por aí fora... Porque pensar pelas próprias cabeças e em defesa de quem neles depositou a sua confiança e o seu voto é demasiado para uma maioria na Assembleia, um Governo e um Presidente.

18 junho 2013

Os que acordam e os que nem por isso

Neste momento, estaremos a assistir a um novo tumulto com grande impacto internacional, um pouco à semelhança do que terá sido a Primavera Árabe em 2011. Da Turquia e do Brasil, vamos tendo conhecimento de protestos cada vez mais maciços e intensos. As causas vão variando mas tudo teve início na recusa popular do aumento das tarifas dos autocarros. Uma "trivialidade" para muitos, especialmente quando se tratou de um aumento em cerca de 20 centavos. Um motivo de luta para muitos outros, que entendem que há limites para o descaramento.

No Brasil...
Vai-se à rua pedir mais qualidade em transporte, saúde e educação, itens básicos de um país que se quer próspero. Vai-se à rua pedir menos violência. Vai-se à rua protestar contra a corrupção impune, que transfere para uns poucos os recursos que deveriam ser investidos para o bem comum. Vai-se à rua contra gastos estratosféricos para a realização de grandes eventos esportivos – a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. 
Em Portugal, não se sai à rua para pedir mais qualidade nos transportes, na saúde e na educação. Aliás, uma greve de professores é razão para se assistir a argumentações que deixam de parte a possibilidade de uma greve ser útil. Porque, dizem, estas não devem prejudicar ninguém.

Em Portugal, a corrupção também é impune e é amplamente criticada e condenada pela opinião pública. Ainda assim, há casos para todos os gostos, desde aqueles que até têm adeptos, passando pelos autarcas que prosseguem as suas defesas ad aeternum ou até pelos casos mais "insuspeitos". Ainda assim, ninguém sai à rua. Nem se sai à rua contra gastos estratosféricos que, em Portugal, vão muito além de um Euro 2004 cheio de obras de uso questionável ou de auto-estradas proporcionalmente inúteis quanto seria útil uma aposta firme em redes de transportes públicos.

Ninguém sai à rua. Falta um acordar.

«Manifestantes concentrados no Congresso Nacional»
Foto: Paula Cinquetti | Agência Senado

23 maio 2013

"Não recebo uma resposta há meses"; "Mas já viu como pode evitar certos movimentos corporais?"

aqui me referi à mais recente tendência na área da comunicação social: para poder captar um maior tráfego de acessos aos seus sites, sítios como o Dinheiro Vivo servem-se como interpostos de anúncios de emprego e pseudo-emprego, oportunidades e pseudo-oportunidades de emprego em Portugal e no estrangeiro. Como disse na altura, toda esta aposta para poder trazer mais receitas publicitárias e poder manter o emprego de algumas dezenas ou centenas de jornalistas em redacções que a isto se dedicam traz consequências que, até aqui, não foram cuidadas: a verificação da fiabilidade dos anúncios que dispõem nas suas notícias ou o acompanhamento das oportunidades de emprego que promovem como se da última Coca-cola do deserto se tratassem. Devia haver esta preocupação, mas isso faria com que este tipo de sítios, em vez dos 100 artigos publicados, tivessem uns 20 ou 25, assim que descobrissem as mentiras que por aí andam. Nesse aspecto, um sítio como o Ganhem Vergonha tem muito mais responsabilidade social nas informações que promove do que todos estes sítios pseudo-jornalísticos juntos.

O que me traz aqui, hoje, ainda assim, é diferente. Todos já terão visto, um pouco por todo o Facebook e outras redes sociais, artigos com títulos como: 
E podia continuar por aí fora com mais umas dezenas de pérolas deste tipo. Esquecendo, por momentos: o quão úteis poderão ser estas dicas; o quão falaciosas poderão ser algumas generalizações tidas, aqui, como verdades absolutas seja para a área do Direito, como do Marketing ou da Enfermagem; ou o possível alheamento da realidade que algumas destas afirmações mostram dos seus autores - entrevistas?! Onde?! Mercado só "absorve" os melhores?! Onde?!

Enfim, continuando. Seria muito mais interessante começar a redireccionar um pouco toda esta capacidade de pensar e aconselhar os Recursos Humanos para áreas verdadeiramente úteis. É relativamente fácil procurar alguém responsável pelo recrutamento de uma qualquer empresa para despejar algumas banalidades e conceitos tão discutíveis como os exemplos acima demonstrados. Difícil é pegar nesses mesmos responsáveis de recrutamento, os supostos "Gestores de Recursos Humanos" e colocar questões que passarão, certamente, pela cabeça dos já cerca de um milhão de desempregados em Portugal ou dos 73 milhões de jovens desempregados por todo o mundo.
  • Por que não respondem às candidaturas que são enviadas para os anúncios que promovem durante semanas ou meses?
  • Por que há contactos "exploratórios" num dia e passadas semanas é como se nada se tivesse passado?
  • Por que, apesar de não ser dado qualquer feedback sobre as candidaturas recebidas, continuam a promover o mesmo anúncio como se aquele e-mail nunca vos tivesse chegado?
  • Por que continuam a passar-se como especialistas em Recursos Humanos e, ao mesmo tempo, a ter este tipo de atitudes?
  • Confirmam, ou não, que há "cunhas" num número abusivo de concursos aparentemente transparentes?
  • Serão mesmo "só os melhores" que conseguem trabalho?
  • O que quererão dizer com "adaptáveis"? Trabalhar de borla?

Pois é. Nada disto terá qualquer tipo de interesse ao lado da preocupação (legítima) de procurar tirar partido do desespero humano de procura de oportunidades em qualquer lado que seja para se poder continuar a ter um "negócio" com sucesso. É uma pena que assim seja, mas as questões para as quais realmente seria interessante ver respostas por parte destes especialistas cairão em "saco roto". Nisso ou naquela justificação (automática) interessantíssima de: "Recebemos um inesperado número de candidaturas, pelo que poderá não obter resposta da nossa parte. Caso seja tid@ em consideração, entraremos em contacto". Isto, apesar de tudo, ainda é melhor do que nada, que é o que em 98% dos casos se faz às candidaturas recebidas.

A pergunta para "10 Milhões de Euros". Talvez seja por isso que a resposta seja sempre uma "miragem". Foto: 9gag.com.

17 abril 2013

O patriotismo selectivo

Uma das ligações entre Portugal e Espanha, a Norte. Do ponto A ao ponto B distam-se 450 metros.

No exemplo que coloco acima (nada ilustrativo de qualquer situação concreta) são 450 metros a distância que separa uma besta de um génio bestial. Porque é assim - dizem - que devemos diferenciar os portugueses do resto. Calha que, para nós, portugueses, em termos de vizinhança, o "resto" esteja restrito aos espanhóis. Espanha: aquele sítio que - dizem - não vem nem bom vento nem bom casamento.

Já em Portugal é tudo bom. Aliás, "o que é nacional é bom", dizem. Temos aquela tendência de achar que se é português é bom e de que se é estrangeiro é porque também é bom. Porque se é português temos de apoiar. Infeliz aquele que nasce 450 metros ao lado, fora de um determinado limite geográfico, que nunca terá este apoio fruto de uma selecção acrítica.

No entanto, somos uns bipolares do patriotismo. Passamos rapidamente de um triste "só neste país" para um "temos de apoiar porque é português". Num minuto, estamos a exercer um ódio visceral para com 230 compatriotas e no seguinte a venerar um outro porque é o líder mundial na sua actividade. Para os 230, que até poderão ter algumas acções elogiáveis, boas decisões, palavras, gestos e uma postura assinalável, resta o total desprezo. Para aquele "um", pode dizer o que quer, fazer o que lhe apetece e ser injusto para quem pode, que será sempre apoiado. Porque é português e é preciso apoiá-lo.

Para um português do Real Madrid, o mediatismo e o apoio patrióticos - porque é mais relevante que todos os outros - é enorme quando comparado com a quase inexistente relevância atribuída a plantéis "inteiros" com portugueses no estrangeiro, como o Cluj, da Roménia, o Deportivo da Corunha, de Espanha, o Lusitanos, de Andorra, o Recreativo do Libolo, de Angola, ou toda a liga de Chipre, por exemplo (e são centenas os exemplos). Ou, continuando no mundo futebolístico, quando um adepto do FC Porto, do Sporting ou do Benfica é um acérrimo defensor de Cristiano Ronaldo porque é português mas não é capaz de defender as "cores" portuguesas quando clubes do seu país jogam nas competições europeias, torcendo pela sua eliminação.

Há um patriotismo selectivo, um pouco estranho para quem vê de fora. Imune a críticas, a brincadeiras ou a provocações quando se trata dos preferidos dos patriotas; centro de críticas quando são os "parolos", os "bimbos" ou os "saloios" do costume. Porque aí já não são portugueses, são outra coisa que não exige o apoio incondicional.

Luís Franco-Bastos, comediante português que muito admiro, lançou este "tema" hoje no seu Facebook. Foi o que me fez alongar-me um pouco mais sobre o assunto.

Dizem - os que defendem que é preciso apoiar determinados portugueses - que: "Este país tem um problema de dimensão mas não é geográfica, é de mentalidade".

A mentalidade - dizem - que impede alguns portugueses de apoiar outros compatriotas, de sucesso absoluto, por inveja, por sermos pessoas mesquinhas que não toleram o sucesso alheio. Não há a mínima hipótese de existirem zonas "cinzentas", onde é possível criticar qualquer um, onde é possível não gostar de qualquer um, onde a "decisão" de se apoiar, ou não, alguém não reside na partilha da nacionalidade de outrem.

Portugal vive tempos difíceis com nomes desta nacionalidade a levarem o país às "bocas do mundo". Nomes que são elogiados, adorados e admirados (cada um à sua maneira e proporção) tanto no seu país como no estrangeiro. Muitos deles, até, mais no estrangeiro do que cá. Porque, talvez, não chegam ao estatuto de português de primeira classe, aquele que tem acesso ao "Temos de Apoiar Porque é Português".

António Félix da Costa, Luís de Matos, Buraka Som Sistema, Deolinda, Moonspell, Manuel José, Manoel de Oliveira, José Saramago e tantos outros... São nomes de alguns dos portugueses que são, por várias vezes, referidos no estrangeiro como nomes grandes nas suas áreas de actividade. Já cá, alguns dos seus feitos continuam a passar um pouco ao lado da grande massa populacional, o que leva a que não consigam chegar ao estatuto máximo de português.

No entanto, para os portugueses aos quais é preciso apoiar porque nasceram no mesmo espaço geográfico do que aqueles que com eles partilham a nacionalidade e um documento de identificação semelhante, criticá-los é inveja e problema de mentalidade. Por muita razão que se tenha sobre o que se diz (dos trabalhos) da Joana Vasconcelos ou do Cristiano Ronaldo.

Lisboa, 2005: Cristiano Ronaldo no jogo que opôs o Manchester United ao Benfica, no Estádio da Luz, para a Liga dos Campeões.

O que dirão os patriotas defensores de que é preciso apoiar quem é português sobre Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, António Guerres, Alto-Comissário da ONU para os Refugiados, ou Tony Carreira, o maior artista português da actualidade? Pouco, talvez. Apesar destes seus "estatutos", ou porque os primeiros são políticos, apesar dos grandes lugares de destaque que ocupam, ou o segundo é um artista "parolo", já são portugueses de valor um pouco inferior? Ninguém diz: "Durão Barroso é português, temos de apoiá-lo", ou "O Tony Carreira merecia um Grammy, que injustiça a atribuição destes prémios".

Confesso que para um não-patriota como eu, que prefiro apoiar, apreciar e admirar o que me dá um gosto genuíno, é difícil viver no Portugal de hoje. Porque quem pensa desta forma, um pouco diferente da opinião generalizada, é um "anti-tuga" e que não respeita quem é português. Por muito que adoremos os Xutos e Pontapés, o Rui Costa, o Luís Figo, o trabalho que Miguel Portas fazia no Parlamento Europeu e fora dele, o Manel Cruz, o Luís Franco-Bastos, o Herman José, o Ricardo Araújo Pereira, o Bruno Nogueira, o João Quadros, o Fernando Alvim, o João Moutinho, o padeiro da nossa rua que faz um pão espectacular, o empreiteiro que nos construiu a casa, que está com grandes condições e tal e qual sonhámos, ou o dentista que nos trata sempre com um sorriso e uma grande qualidade e profissionalismo.

Não, nada disso importa se não se apoiar o Cristiano Ronaldo ou o José Mourinho.

É divertido ver o sentimento patriota, algo supostamente irracional, inato em cada um, pela ligação emocional a uma determinada nação, tornar-se em algo subjectivo, alvo de uma racionalidade assustadora e uma atitude optativa que impressiona pela selecção que faz de portugueses de sucesso que são criticados pelos seus compatriotas e portugueses de sucesso que são esquecidos ou ignorados por motivos de gosto ou de concordância (Tony Carreira e Durão Barroso, por exemplo). Motivo esse (o gosto) que é deixado de lado quando se fala de quem critica os "grandes" nomes do país. Porque não se pode dizer mal, que são portugueses e devemos apoiá-los.